MEMÓRIA

Em 1976, incêndio nas Lojas Renner traumatizou Porto Alegre

Incêndio nas Lojas Renner, na esquina da rua Otávio Rocha com rua Doutor Flores, começou no terceiro andar. Ao menos 41 pessoas morreram.

Reprodução de foto do inquérito policial de 1976. Foto: Roberto Bacelar/IGP
Reprodução de foto do inquérito policial de 1976. Foto: Roberto Bacelar/IGP

Terça-feira, 27 de abril de 1976. Um incêndio irrompeu em uma das maiores lojas de departamentos de Porto Alegre à época. O sinistro nas Lojas Renner, localizada na esquina da rua Otávio Rocha com rua Doutor Flores, foi um dos eventos traumáticos que forjam a história recente da Capital.

O fogo começou por volta das 14h, no terceiro andar do edifício, de acordo com os bombeiros, um horário bem movimentado. Na época, o conceito da Renner era bem direfente da rede atual. Além da loja de departamentos – com artigos de vestuários – havia venda de utilidades domésticas, brinquedos, eletrodomésticos, instrumentos musicais, equipamentos para cine-foto.

Estima-se que estavam no interior da loja cerca de 350 pessoas quando o fogo começou. O prédio tinha área de cerca de 8.000 m², edificados num terreno de 1.000 m², conforme o Corpo de Bombeiros. A edificação contava com um restaurante no 7º andar (9º pavimento, considerando a loja e sobreloja). Por fora, formavam um bloco único, mas, na verdade, era um conjunto de quatro prédios, que já haviam passado por ampliações e reformas.

Após duas horas do início do fogo, ocorreu o desabamento parcial do prédio. Ao todo, três dos quatro blocos que formavam o conjunto de lojas desabaram.

Resgate

Helicópteros sobrevoaram o local, mas não conseguiram salvamentos, em razão da falta de acesso às vítimas, pela grande quantidade de gases quentes, chamas e fumaça. Duas auto-escadas mecânicas do Corpo de Bombeiros realizaram o salvamento de 45 pessoas nos dois últimos pavimentos, onde localizava-se o restaurante.

No entanto, apesar dos salvamentos, 41 pessoas morreram naquela terça-feira. Outras 65, incluindo três bombeiros, ficaram feridas, conforme os arquivos do Instituto de Criminalística, atual IGP (Instituto-Geral de Perícias). Os Bombeiros controlaram as chamas na parte da tarde, mas o fogo só foi totalmente debelado dois dias depois.

Toda a cidade se mobilizou para auxiliar as vítimas. Juntamente do corpo técnico do HPS (Hospital de Pronto-Socorro), centenas de pessoas procuraram o banco de sangue para fazer doações.

Reprodução de foto do inquérito policial de 1976. Foto: Roberto Bacelar/IGP

Causas do incêndio

No mesmo dia 29 de abril de 1976, peritos criminais ingressaram no que sobrou dos prédios. Dos escombros, eles observaram o que sobrou das estruturas de alvenaria, divisórias internas de madeira, instalações hidráulicas, escadas e elevadores. No entanto, as instalações elétricas receberam a maior atenção possível.

Os peritos desmontaram tomadas em busca de indícios de curto circuito. Por fim, a única irregularidade da rede elétrica encontrada estava em um aparelho de ar condicionado do 4º pavimento. Uma pequena gota de ferro fundido, com aspecto semelhante a uma pérola, indicava um curto circuito. Mas o laudo final concluiu que o curto circuito foi consequência da ação das chamas, ou do calor da grade metálica e não a causa do incêndio.

Os peritos também avaliaram as condições arquitetônicas do local. A escada social possuía um metro de largura. Isso era metade do que preconizavam as normas técnicas de segurança da época. Portanto, era insuficiente para a evacuação.

As janelas fechadas seladas armazenaram os gases tóxicos e impediram o acesso dos bombeiros aos andares mais altos. As cortinas metálicas “corta-fogo” eram do tipo de enrolar, e sequer tiveram utilidade.

Laudo final

O laudo final teve assinatura apontando a conclusão em 14 de julho de 1976. O documento foi remetido para a 1ª Delegacia de Polícia. Para os peritos, as chamas começaram por “ação de corpo ígneo (cigarro ou palito de fósforo) caído ou lançado, acidental ou propositalmente sobre material combustível”.

Conforme a perícia, o fogo teria iniciado nos fundos do 1º andar, próximo à escada de emergência. No local, estavam embalagens plásticas, palha e o depósito de tintas e solventes que, pelo impulso de uma fagulha, provocaram grandes explosões. De acordo com o laudo, 15 extintores de incêndio usados estavam no lance de escadas imediatamente superior ao do 1º andar. Isso levou os peritos a conclusão de que a escada acabou obstruída logo no início do fogo, e acabou servindo como uma chaminé, que propagava a fumaça verticalmente, para andares mais elevados.

Os documentos fornecidos pela empresa responsável pela manutenção dos extintores afirmam que a quantidade destes equipamentos era até maior que a necessária. Mas a posição em que estavam impediu o uso. Por ironia, no dia do incêndio, estava sendo feita uma vistoria nos extintores.

Laudos do incêndio das Lojas Renner