SUL-AMERICANA

Crônica de Inter 0 x 0 Real Tomayapo: enfim a corneta

Inter saiu vaiado de campo. Próxima chance de se reaver com a torcida é na estreia no Brasileirão sábado contra o Bahia

Alario esteva apagado no jogo de hoje - Foto: Ricardo Duarte / Internacional
Alario esteva apagado no jogo de hoje - Foto: Ricardo Duarte / Internacional

Fazia dias não via Joaquim, meu vizinho jornalista aposentado e Colorado agora assumido. Foram uma série de empates nos últimos jogos, mais a eliminação para o Juventude no Campeonato Gaúcho. Acho que ele andou me evitando. É que o Joaquim é meio ranzinza e, quando as coisas vão bem, ele até esbanja uma ironia fina, com aquele risinho de canto de boca. Mas, quando a vaca vai para o brejo, só sobra uma acidez corrosiva. As palavras carregam consigo o estômago dispéptico de meu nobre colega de condomínio. Daí ele sumir.

E hoje eu voltava de um aniversário. Nada demais. Como vocês sabem, leitores (as), minha vida é lenta e silenciosa. Enquanto todos conversavam no restaurante, eu observava luzes amarelas. O alarido servia de trilha sonora enquanto eu me permitia um vinho rosé. Na volta, no rádio do carro de aplicativo, ouvi que o Inter não conseguiu vencer o Real Tomayapo, da Bolívia, em pleno Beira-Rio, pela Sul-Americana.

Na transmissão do pós-jogo, umas informações bizarras. A folha de pagamento do adversário colorado é de R$ 300 mil. A do Inter R$ 16 milhões. O Inter também consagrara o goleiro de 1,76m do time boliviano. A torcida estava indignada. Houve vaias. Pensei: “mais dias sem ver Joaquim”. O carro estava próximo. Chego ao condomínio com Lygia e, no caminho até o prédio, sentimos a brisa da noite, que já não é tão quente em Porto Alegre.

Pego de surpresa

Estava direcionado ao meu apartamento quando, ao olhar de soslaio no sentido contrário da nossa porta, vejo Joaquim. Estava atrás de seu gato de estimação, o Gabiru. Um imprevisto da natureza, uma rebeldia do mundo animal, o tirara do esconderijo. Ele fala:

– Quando vocês entraram no prédio, viram o Gabiru?

– Não – respondemos em uníssono.

– Bom, não é primeira vez que ele some, espero que em breve apareça.

– Se nós o virmos, te avisamos imediatamente.

– Obrigado. Eu estava vendo o jogo daqueles ruins, deixei a porta aberta e ele saiu sem eu ver.

– Foi tão feia a coisa? – perguntei. O sorriso de canto de boca agora era meu.

– Nossa… time mais ou menos misto. Ninguém pensava no meio, com Alario e Borré de aipins no meio da área sem fazer nada. No segundo tempo o Coudet tentou ir para cima, mas não havia organização nenhuma. Bá, e o Alan Patrick se machucou ainda por cima. Quero só ver o início do Brasileirão – falou Joaquim esbravejando.

– Quando começa?

– Sábado (13) agora. Às 18h30 no Beira-Rio. Vou ver se vou.

Conversamos mais um pouco e nos voltamos para casa. A corneta intensa e desafinada de Joaquim me lembrou do Acid Jazz. Mas Lygia e eu resolvemos manter o tom silencioso. Fomos de Kind of Blue, do Miles, que não é tão eufórico. Por um instante penso em Joaquim e no fundo melancólico de sua fala assertiva. Como aquele jazz.