OPINIÃO

Noite dos Museus movimenta Porto Alegre, mas precisa se organizar melhor

Evento é um sucesso, mas repensar se não vai ocorrer conflito entre as atrações e maior suporte dos órgãos municipais para a próxima edição.

Night Run na Praça Montevidéu. Crédito: Noite dos Museus
Night Run na Praça Montevidéu. Crédito: Noite dos Museus

A 9ª edição da Noite dos Museus, realizada neste sábado (29), foi um sucesso. Milhares de pessoas circularam por diversos pontos de Porto Alegre. O evento marcou o retorno de espaços culturais após a enchente de 2024, trouxe shows, atrações variadas e até uma corrida de rua.

Locais simbólicos, como o Palácio Piratini, abriram suas portas para receber o público. Em diferentes regiões da cidade, a programação musical atraiu perfis diversos de visitantes.

É inegável: manter tudo isso funcionando é um grande desafio. É preciso coordenar o trabalho de milhares de pessoas, em dezenas de locais, simultaneamente.

O evento deste ano teve número recorde de atrações – cerca de 100 atividades distribuídas em 40 pontos. E é justamente nessa grandiosidade que aparece um flanco perigoso para o futuro da Noite dos Museus.

Explico: tudo ficou tão grande que a organização até conseguiu dar conta, mas não plenamente. Minha sensação – compartilhada com outras pessoas que acompanharam a cobertura – é que faltou alinhamento.

Corrida noturna no meio do evento?

Um exemplo: por que a corrida noturna precisava acontecer no coração do Centro de Porto Alegre? Não poderia ter sido realizada na Orla do Guaíba, onde o fluxo de veículos já é restrito nos fins de semana? Isso não foi cogitado? Quando acabasse, os participantes caminhariam em direção dos outros eventos.

Não iria transformar o acesso ao Centro em um caos, algo agravado pelos bloqueios devido à derrubada da antiga passarela da Rodoviária. Avenidas como a Mauá e ruas como Siqueira Campos, dos Andradas, Riachuelo e Duque de Caxias ficaram congestionadas – de carros e de gente.

Houve conflitos entre pedestres e motoristas. Em uma cena que presenciei na esquina da Riachuelo com a General Câmara, o motorista de um HB20 cinza – com adesivo de uma empresa de elevadores – quase atropelou várias pessoas sobre a faixa. Ele não queria esperar a multidão que descia da Praça da Matriz em direção à Alfândega. Detalhe: ele nem deveria estar circulando ali.

A EPTC só bloqueou as ruas no entorno da Noite Run. Enquanto isso, era quase impossível caminhar na Andradas, onde o fluxo entre a CCMQ e a Alfândega era gigantesco. Alguém pode argumentar que novos bloqueios deixariam o trânsito ainda pior. Não deixariam — se tivessem sido planejados e aplicados horas antes de o evento começar.

Falta transporte público

Outro problema é a falta de transporte público. Em uma cidade com pouquíssimas linhas noturnas, era praticamente impossível circular entre os diferentes bairros sem depender de carro. Alguns locais – como PUCRS, Galeria de Arte do DMAE, Goethe-Institut, Museu da UFRGS e Planetário – são relativamente bem atendidos. Outros, não.

O Museu do Hip Hop, por exemplo, teve público abaixo do esperado. E dá para listar os motivos: localização distante do Centro, ausência de linhas especiais da Noite dos Museus, intervalos gigantescos nas linhas regulares e preços altos nos aplicativos devido à alta demanda. Mais uma vez, a Prefeitura precisa fornecer transporte adequado para que as pessoas circulem entre os eventos.

A atual gestão da Prefeitura de Porto Alegre já tem o estigma de ser “desleixada” com a cidade. Então é preciso cobrar, reforçar, insisitir até o Paço Municipal se convencer que as coisas são necessárias.

Se a Noite dos Museus quer continuar crescendo de forma saudável e fazer uma 10ª edição memorável, esses pontos precisam ser enfrentados. A experiência do público precisa ser acessível, agradável e funcional. De pouco adianta descentralizar atrações se as pessoas não conseguem se deslocar entre elas – ou se ficam sujeitas ao humor de um motorista impaciente que não respeita uma faixa de pedestres.