CRÔNICA

Fernando Pessoa e Cristiano Ronaldo: entre aceitar e transformar

Crônica reflete sobre o modo de viver pós-moderno, oscilante entre a simplicidade do cotidiano e a euforia na cultura

Foto: myshoun/Pixabay/Divulgação
Foto: myshoun/Pixabay/Divulgação

Dia desses estava vagando pelo YouTube ouvindo leituras de poesias. Até que cheguei em uma chamada “Monotonia”, atribuída a Fernando Pessoa. O texto fala da relação entre felicidade e o nosso poder de “monotonizar” a vida. De como pessoas que, a olhos externos, parecem ter existências vulgares, rotinas simples, podem extrair disso momentos de muito prazer.

O tema toca em uma discussão bastante atual, em tempos onde cresce a difusão das ciências sociais, mas também de áreas como a psicanálise. A cura e, de modo geral, a melhoria nas condições de vida, viria da desaceleração do dia a dia, aceitando até uma certa precariedade do modo de vida, mas, apesar disso, com um maior contato consigo e com a natureza, ou deveríamos buscar a permanente transformação, em um enlace entre a subjetividade e o pensamento do progresso?

Outro luso parece ir na direção oposta a de Pessoa. Cristiano Ronaldo chegou aos 40 anos com números estratosféricos de gols, títulos e, evidentemente, dinheiro. Dia desses, vi que a família dele comprou imóveis no Litoral Norte do RS, inclusive. Mesmo em uma idade onde a maioria dos atletas já parou ou se programa para isso, CR7 ainda busca o milésimo gol, se tornando um símbolo de nossa cultura das metas, da disciplina, da produtividade, e por aí vai.

Dá-se a impressão que Cristiano não se sente satisfeito, buscando um constante auto aprimoramento que, até agora, não parece ter exatamente um ponto de chegada. Evoluir é um fim em si mesmo para o gajo. Já Pessoa para as máquinas, observa a beleza inerte das pedras, reais por si só. Um busca a satisfação do reconhecimento daquilo que uma cultura coloca como desejável, tornando o próprio corpo uma engrenagem dessa comunidade. O outro, parece esse tipo cada vez mais comum do habitante solitário do mundo urbano, que vaga quase que melancolicamente pelas ruas, ou que passa um domingo lento e nostálgico em um apartamento, a sós com seus livros.

Vejo, no entanto, que as duas experiências têm fontes de satisfação. Algo em nós está conectado ao mundo lá fora, naquele âmbito onde os valores são coletivos e nos atravessam, impelindo a um determinado movimento. Mas há aqueles momentos de fechar a porta e deixar tudo para o lado de fora.

Mas algo aparece ainda apagado nessa discussão: o outro. Navega-se entre a euforia do reconhecimento social e a busca por aquele amor cotidiano. É ilusão pensar a diferença entre Fernando Pessoa e CR7 sem levar em conta um certo modo de se encontrar.

Em comum, também, a eterna incógnita sobre saber o que se busca e quando de fato se encontra. Navega-se entre miragens, sem nem sempre saber o que há no além-mar.

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