
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 deixaram marcas duradouras na saúde mental da população. Um estudo coordenado pela UFPel (Universidade Federal de Pelotas), em colaboração com outras instituições nacionais e internacionais, revela que mais de 80% da população adulta avaliada teve sua vida afetada pelo desastre.
A pesquisa aponta ainda que os sintomas de ansiedade e depressão aumentaram significativamente, especialmente entre os mais expostos às consequências das inundações.
Participantes impactados
O estudo analisou dados de 2.494 adultos participantes da coorte PAMPA (Estudo Prospectivo sobre Saúde Mental e Física em Adultos). A coleta ocorreu entre setembro e outubro de 2024, poucos meses após o evento climático extremo.
O levantamento mostrou que quase um terço dos participantes sofreu uma alta carga de impacto, incluindo deslocamento forçado, perdas materiais, interrupção de serviços básicos e dificuldades de acesso à saúde.
A coorte PAMPA acompanha, desde junho de 2020, mais de 15 mil adultos no RS. Com base nesses dados longitudinais, os pesquisadores projetaram a trajetória esperada dos sintomas de ansiedade e depressão entre 2020 e 2024 na ausência das enchentes e a compararam com o cenário observado após o desastre.
Os resultados mostram que as enchentes estiveram associadas a um excesso de 77% nos sintomas de ansiedade e 129% nos sintomas de depressão. Ou seja, níveis substancialmente acima do que seria esperado para aquele período.
Depressão e ansiedade
Os resultados também indicam uma forte associação entre o impacto das enchentes e os sintomas de depressão e ansiedade. Pessoas com maior exposição às enchentes apresentaram 72% mais sintomas moderados a graves de ansiedade e 52% mais sintomas moderados a graves de depressão, em comparação àquelas menos afetadas.
O estudo também identificou grupos particularmente vulneráveis. Pessoas que precisaram sair de casa, que viviam sozinhas ou que tinham menor escolaridade apresentaram riscos ainda maiores de sofrimento psicológico. Participantes deslocados pelas enchentes tiveram prevalências de ansiedade e depressão até 90% superiores ao que seria esperado com base em padrões anteriores à tragédia.
“Nossos achados evidenciam o profundo e desigual impacto das enchentes de 2024 na saúde mental da população gaúcha. Esses resultados reforçam a necessidade de estratégias voltadas ao manejo desses sintomas, bem como de novos estudos que continuem acompanhando seus efeitos a médio e longo prazo”, explica o pesquisador Natan Feter, autor principal do estudo.
Desigualdades
Segundo os autores, os resultados reforçam que desastres climáticos não são apenas eventos ambientais, mas também crises de saúde pública, que aprofundam desigualdades sociais já existentes. O trabalho destaca a necessidade de políticas públicas que integrem apoio psicológico, proteção social e suporte econômico, especialmente durante a fase de
reconstrução.
Realização
O estudo é o primeiro a avaliar de forma abrangente os efeitos das enchentes de 2024 na saúde mental da população do RS. Além disso, oferece evidências importantes para orientar ações de preparação, resposta e recuperação diante de eventos climáticos extremos. Estes, tendem a se tornar mais frequentes com as mudanças climáticas.
Pesquisadores da UFPel, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal do Rio Grande, Brown University e University of Southern California coordenam a coorte PAMPA. O estudo foi recém-publicado na revista Cadernos de Saúde Pública.
Seu negócio no Agora RS!
Fale com nosso time comercial e descubra como veicular campanhas de alto impacto, personalizadas para o seu público.